O pânico moral e o”caso do RPG”

Saudações aos neolíticos.

O assunto desse post é sobre algo bastante sério, que infelizmente passará batido pelos grandes meios de imprensa. Vocês se lembram do já longíquo caso em que uma estudante foi encontrada morta em um cemitério na cidade mineira de Ouro Preto, culminando em uma moça e três rapazes sendo acusados de tê-la matado em um ritual satânico envolvendo a prática de RPG. Pois é, caros leitores, deu o de sempre: mais um escandaloso caso de pânico moral. Acompanhem.

Antes de mais nada, apenas esclareço que embora o RPG em sua essência seja dissociado dos videogames (alguns de seus aspectos foram incorporados naquilo que se tornou um gênero), trato do ocorrido pelo fato de também se tratar de um jogo e portanto uma atividade lúdica, tanto quanto os jogos eletrônicos. Nunca fui muito interessado por RPG, mas joguei algumas partidas na adolescência e participei de um grupo com meus amigos da primeira faculdade, em que jogávamos todas as sextas durante um semestre.

Para contextualizar os que não estão tão familiarizados com o tema do texto, resumo aqui o que ficou conhecido como “Caso Aline” ou “Caso do RPG”, ocorrido na cidade mineira de Ouro Preto em 2001. Todo dia 12 de outubro ocorre em Ouro Preto a chamada “Festa dos Doze” em que universitários e ex-alunos da universidade federal da cidade festejam mais ou menos como outras festas universitárias que ocorrem por aí. Aline (na época com 18 anos), sua prima Camila e mais uma amiga foram para lá. Aline, Camila e Liliane se hospedaram na república estudantil Sonata, frequentada pelos estudantes Edson Poloni Aguiar, Cassiano Inácio Garcia e Maicon Fernandes, que junto de Camila, foram também diretamente acusados pelo homicídio. Em comum entre eles, a suposição de serem jogadores de RPG e de haver material dos jogos na república. No fim das contas, Aline foi encontra morta no cemitério Nossa Senhora das Mercês, no dia 14 de outubro. Estava nua, “com os braços abertos e pernas cruzadas, ao lado de roupas cuidadosamente arrumadas no chão, entre elas uma blusa coberta de esperma. O corpo tinha sido propositadamente arranjado dessa forma, fato evidenciado por uma trilha de sangue no local“.

Os demais detalhes do assassinato vocês encontram nas fontes que estão postas após o final do texto. A sequência disso foi o constrangedoramente repetitivo pânico moral por parte dos jornalões e da imprensa televisiva. Uma verdadeira invasão de notícias distorcidas e irresponsáveis, baseadas em ódio, preconceito, má-fé e ignorância, visando estigmatizar não apenas a prática do RPG (além do jogo em si), bem como o os quatro estudantes injustamente acusados, linchados moralmente pelos meios de comunicação. O RPG passou imediatamente a ser relacionado (e posteriormente estigmatizado) com a prática de rituais macabros e satanismo, que para o asqueroso delegado responsável pelo caso, era a prova definitiva da culpabilidade dos quatro estudantes na morte de Aline, no cemitério. Como vocês lerão em maiores detalhes nos links, a investigação foi tudo, menos…investigação. Um completo desastre investigativo e administrativo, perpretado por um delegado incompetente pressionado a apresentar resultados rápidos por uma imprensa preconceituosa e sensacionalista. Qualquer semelhança com os casos da Escola Base e do Bar Bodega é mera coincidência.

No julgamento que terminou as cinco e tantas da manhã do dia 05 de julho, todos os acusados foram considerados inocentes, ou como foi escrito na sentença: “os réus não concorrerem, de qualquer forma, para a prática do crime”. Porém, o resultado do julgamento teve uma exposição midiática inversalmente proporcional ao do surgimento do caso em 2001, praticamente como uma nota de rodapé contra destaque de primeira página. Nos semanários Veja, Istoé e Época, nem um piu sobre o assunto. Na Globo, o julgamento e posterior absolvição teve repercussão bem mais discreta do que quando surgiu a notícia em 2001. Procurei por alguns videos de reportagens mais antigas, sem sucesso, apenas encontrei textos que se referiam a elas. Mas achei esse video do Jornal Hoje, vejam:

Assistam e percebam a manipulação em curso. A reporter, na narração em off, até se esforça em explicar um pouco como funciona o jogo, mas há uma evidente manipulação no video. Notem que de alguma forma os rapazes foram orientados a simular uma situação de jogo ocorrida em um cemitério, justamente em que há um assassinato (bem aquela parte em que joga-se o dado para saber se deu o personagem acertou o tiro). Ainda fizeram questão de mostrar o rapaz descrevendo uma ação perto de um túmulo, descrevendo uma cena de violência física explícita. Ou seja, de uma forma oblíqua, induz o telespectador a fazer uma associação mental da reunião ali com o que suspostamente teria ocorrido no cemitério de Ouro Preto. O destaque dado a um jogo com tema vampiresco só reforça essa analogia. A entrevista com a psicóloga foi editada de forma a também fazer uma associação com o caso de Ouro Preto.

Em uma reportagem escrita em 2005 por Cynthia Semíramis Vianna (portanto quatro anos após o crime) para o portal Observatório da Imprensa, já fazia severas críticas ao que ela classifica como má atuação da midia no caso. Destaco um trecho:

“O Jornal da Globo (jg.globo.com/JGlobo/0,19125,VTJ0-2742-20041220-71435,00.html) de 20/12/2004 fez reportagem sobre o crime, divulgada nacionalmente. Nela, enquanto a narração afirmava que foram encontrados manuais de magia negra, incluindo uma bíblia satânica, a tela mostrava apenas livros de RPG, levando a uma associação de idéias absurda. Vale esclarecer que a referida “bíblia satânica” era um dos suplementos do RPG “Vampiro: A Máscara” denominado “Livro de Nod”, que reúne textos poéticos, fictícios, sobre uma possível origem bíblica dos vampiros.”(grifos nossos)

Em seguida ela complementa:

“Porém, a mídia não esclarece essas questões. Poderia fazer um favor à sociedade ao explicar como se dá o processo de criação de personagens, o desenrolar do jogo, e desmistificar o comportamento dos jogadores. Mas, ao optar por fazer associações com magia negra ou reproduzir a ignorância de quem nunca jogou nem viu um livro de RPG, apenas faz com que os jogos sejam injustamente criticados e proibidos.”

E por fim setencia:

“É por viver situações como essa que lamentamos o pouco empenho da mídia. Ela teve três longos anos para aprender o que é RPG e fazer reportagens decentes sobre o tema. Como não o fez, podemos presumir que prefere manipular a opinião pública para desviar os jovens dos seus jogos educativos, fornecendo-lhes outro tipo de diversão: assistir à televisão, ler notícias deturpadas e virar cidadão consumista e alienado.”

Curiosamente, os mesmos meios de comunicação que deitaram e rolaram sobre o tema nos primeiros anos seguintes ao ocorrido, agora se fingem de mortos e quando noticiam, o fazem como se nunca tivessem dito o que falaram antes. É aquele vicio ainda recorrente da grande imprensa em bater, pré julgar e depois que perceber estar errada, não oferecer direito de resposta e esquecer de tudo.

A força do pânico moral

Se ao invés dos livros de RPG, o que fosse encontrado na república Sonata fosse consoles de videogame com jogos como Final Fantasy, Dragon Quest, Chrono Trigger e até mesmo Resident Evil, a cobertura do caso infelizmente teria sido a mesma. Pelo simples fato de que o objetivo inicial nunca foi o de informar, mas o de incitar uma reação histérica da população contra uma atividade pouco difundida e conhecida pelos demais setores da sociedade. E é assim que funciona e se espalha o pânico moral. Já escrevi sobre isso antes, e resgato a definição do sociólogo britânico Stanley Cohen, criador dessa expressão:

“Sociedades parecem ser objetos, agora e sempre, a periodos de pânico moral. A condição, episódio, pessoa ou grupo emerge para se tornar definido como uma ameaça aos valores e interesses sociais; sua natureza é epresentada de uma forma estilizada e estereotipada pela midia de massa; as barricadas morais são preenchidas por editores, bispos, políticos, e outras pessoas com pensamento de direita. Especialistas credenciados pela sociedade anunciam seus diagnósticos e soluções; formas de confrontamento são envolvidas ou (mais comum) são utilizados para, a condição então desaparecer, submergir ou deteriorar e então se tornar mais visível”

Pergunto-lhes se não foi exatamente essa a essência da cobertura do assassinato de Ouro Preto. Para demonstrar a correção do ponto de vista de Cohen, mostro um trecho da reportagem “Projetos esdrúxulos”, do DFTV 2ª Edição:

“Em 1 mês de trabalho, os deputados distritais apresentaram 822 proposições na Câmara Legislativa. O recordista foi Pedro Passos, com 372 itens. O deputado tem pressa para cumprir as promessas de campanha. Ele quer ver escolas, praças e asfalto nas cidades onde foi votado. Além disso, quer que a camisinha seja um item obrigatório da cesta básica e a restrição do comércio dos jogos de RPG. Projeto que nem ele sabe do que se trata.

Mas o que é RPG? Eu não sei o que isso significa, especificamente. Eu vou ver o que é isso primeiro, depois eu falo”, diz Pedro Passos, PMDB.” (Grifos nossos)

O que mais me assustou, porém, foi a atuação desastrada e constrangedora da promotora Luíza Helena Trócilo Fonseca. Leiam uma declaração sua em pleno julgamento:

“Esses jogos que falam de demônios não são podem ser leitura saudável. Sei que muitas escolas até utilizam, mas podem acontecer certos distúrbios sim. Por isso, peço muito que os senhores (jurados) rezem bastante antes de decidir e peçam a Deus para iluminá-los”

E esse outro trecho de reportagem do site ouropreto.com.br:

“Já a promotora Luiza Helena Trócilo foi firme em dizer que, se existe um quinto culpado “é certamente o RPG”.

É assim que algumas de nossas “autoridades” agem em casos desse tipo, que sem conhecimento e embasamento algum sobre o tema que atacam, agem apenas motivados pelo pânico moral. Com o resultado do julgamento e por tudo o que li sobre o assunto, ficou abosulutamente claro não apenas o não envolvimento dos acusados com o RPG (apenas um dos três rapazes jogava), como jamais houve qualquer partida na república. Mesmo que houvesse e fizesse parte dos hábitos lá, ainda assim não há qualquer relação do do RPG com satanismo e rituais macrabros, que por sua vez fossem responsáveis pelo crime. Mesmo assim, como foi apontado pelo artigo do Observatório da Imprensa, os meios de comunicação não fizeram a lição de casa e apostaram no pânico moral para ganhar audiência. Isso foi perceptível também na maneira como ainda atualmente o caso era relembrado. Frases do tipo “os acusados do assassinato da estudante Aline Silveira supostamente envolvidos em rituais de RPG de e magia negra”, ou seja, sempre reforçando a associação do jogo com práticas ocultistas e nocivas.

Devido ao pânico moral, mesmo após a absolvição os quatro estudantes ainda serão considerados culpados por muita gente, em especial os estratos menos informados e os mais retrógados da sociedade. Isso inclui um deputado populista que propõe um projeto de lei sobre algo que sequer sabe o significado do nome e uma promotora que argumenta como um pastor evangélico e pede para os jurados rezarem. Isso só para ficar em alguns exemplos citados ao longo do texto, pois sabemos que há mais palhaços que acompanharam a caravana circense que fez parte da repercussão do caso durante alguns anos. Peguem uma pessoa menos afeita a leitura e que se informa dos acontecimentos principalmente pela televisão e perguntem a ela o que pensa sobre o RPG. A resposta pode ser muito elucidativa.

Desculpem o tamanho do texto e se acabei sendo prolixo, ficou grande mesmo. O fato é que o pânico moral levou ao cometimento de dois erros graves em relação a esse caso. O primeiro é que por óbvio nunca houve qualquer relação dos quatro estudantes com o assassinato, o que graças a anos de incompetência administrativa, falta de investigação adequada e pânico moral contra um um jogo social que nunca levou ninguém a fazer nada de errado, fez com que o verdadeiro assassino ainda esteja a solta. Esse aí, seja quem for, deve ter passado os últimos oito anos rindo à toa. O segundo erro foi o massacre midiático e consequênte estigmatização de um hobby e seus praticantes, que são absolutamente pacifícos. Uma reação quase medieval a uma prática que já existe a mais de trinta anos nos países civilizados. Nos Estados Unidos, país de origem do RPG, só ultraconservadores e fundamentalistas religiosos ainda combatem o jogo. Mais ou menos como ocorre com os videogames.

O pânico moral demorou oito anos para ser derrotado nesse caso, mas suas consequências ficarão marcadas para sempre daqueles quatro inocentes.

Fontes:

Caso Aline: Réus são absolvidos pelo júri – ouropreto.com.br

RPG E MÍDIA: A ignorância continua, três anos depois – Cynthia Semíramis Vianna/Observatório da Imprensa

O Caso de Ouro Preto – Incompetência e Preconceito – Felipe de Amorim

Projetos esdrúxulos – DFTV 2ª Edição

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André V.C Franco/AvcF – Loading Time.

11 thoughts on “O pânico moral e o”caso do RPG”

  1. sempre leio e nunca comento, mas hoje saio do meu anonimato apenas para cumprimentá-lo pelo post, que nada mais é que um tapa na cara dessa imprensa marrom que nosso país possui.

    parabens.

  2. o problemas é que ninguém falou que os 4 foram presos, tiveram a vida estragada por causa de erros de idiotas.
    Será que eles vão processar a promotora e o juíz? eu procuraria um bom advogado pra fazer isso, e arrancar dinheiro deles até não poder mais… pra largar a mão de ser filhos da [email protected]#%@$ e aprender a trabalhar como fizeram no juramento da faculdade 😛

  3. Nossa imprensa é uma píada.
    Porém, sinceramente, a imprensa é uma indústria como outra qualquer… e o público está sedento por comprar isso.. o que voces acha que será entregue?

  4. Sempre participei de grupos de RPG, inclusive sempre fui mais ativo como narrador e lembro bem dessa época. Acontece que as pessoas não sabem diferenciar uma temática mais adulta com itens de ocultismo de uma prática real de satanismo (ou qualquer outra babaquice do gênero).

    O RPG é uma ótima forma de desenvolver a criatividade e até mesmo a escrita, e alguns deles já foram muito usados em escolas (como por exemplo o excelente RPG nacional “O Desafio dos Bandeirantes”).

  5. Sou RPGista há quase dez anos, e ja atuei como narrador (mestre de jogo) por muitas vezes.
    Joguei vários dos jogos mais mal-vistos pelá mídia e pelos ignorantes, como lobisomem: o apocalispe, vampiro: amáscara, Arcanum (e seus paralelos ‘anjos: cidade de prata’ e ‘demônios: a divina comédia’), trevas, dentre outros mais.

    Para qualquer pessoa alfabetizada que se der o trabalho, nas primeiras páginas de qualquer livro de RPG (sim, em TODOS os livros que encontrar), existe uma definição sobre o que é RPG, e as suas regras para uma melhor sessão de jogo.
    Dentro destas definições, existem menções claras sobre o jogo ser apenas fantasia, e sobre evitar ao máximo o contato físico, notóriamente em jogadas de combate ou que representem qualquer perigo, quando estas ocorrerem.
    Definições sobre intervalos entre as horas de jogo também são comuns em jogos de temas mais pesados, ou macabros.
    Apenas um perfeito imbecil poderia se pronunciar em rede nacional a respeito de um assunto, qualquer que seja, sem fazer a menor idéia sobre em que consiste assunto em pauta, quando a informação mínima pode ser obtida em 2 minutos de leitura gratuita.

    Sejamos francos, isto é mais comum do que parece.
    Jogos de videogames, RPGs, música, filmes… em todo canto existe um pseudo-jornalsita que fala ou escreve sobre assuntos dos quais nem uma rápida pesquisa no google foi feita, baseado-se apenas em preconceitos.

    Roqueiros são sempre violentos, RPGistas são sempre psicopatas, gamers são assassinos em potencial, profissionais de informática são eternos virgens, músicos sempre serão drogados, todo rapper é um possível traficante, atores e modelos sabem ler o suficiente apenas para assinarem seus nomes, e todo mundo, sob esta ótica, parece ser absolutamente burro e manipulável.

    Ah sim, quase me esqueço: jornalistas sabem demais sobre qualquer assunto, não dependendo assim de pesquisas e jamais apresentando qualquer curva de aprendizado.

    Sim, fico indignado com essas coisas…

  6. O que a midia atual tenta fazer é manipular uma sociedade formada por um grande numero de ignorantes, que “vendem” suas opiniões a essa imprensa sensacionalista.

  7. Acho que nunca comentei aqui, mas chegou a vez…. Esse caso do RPG, acontece a qualquer momentos, com diversas pessoas, inclusive comigo. Sou fa de Games e Jogos em varias formas gostos e cor, junto com RPG’s e vejo como a grande massa influenciada pela midia barata e baixo nivel, acostumada com escandalos e dramatizacao do sofrimendo alheio, critica duramente gostos e lazeres como se o mais importante nao e o aprendizado de crianças e jovens pelo pais, seja ele qual forma for…
    Para estes responsaveis morais e eticos, onde jogos podem ser violencias brutas, fisicas e mentais, o mais importante e ver relacionamentos amorosos em reality show ou sensacionalismo sobre vidas de famosos…..
    A falta de informaçao dos responsaveis da midia, e seu descasso com a populaçao em busca de noticia e medonha diante de jovens cada vez mais debilitados de estudo e informaçoes nas escolas e midias sociais…
    Da medo em pensar no que vira mais para frente……

  8. E isso acontece também com a maçonaria, a maioria das pessoas não sabem do que se trata, e associam a rituais satânicos, justamente por influência da mídia.

  9. Otimo artigo, rpg eu não considero um jogo pra todos, pessoas de mente “fraca” podem ser influenciadas sim, rpg poderia ser usado na educação tb, eu já joguei muito e a midia realmente manipula a sociedade contra esse jogo.

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