Entre mortos e desaparecidos 5: Accolade

Saudações aos nobres de coração

E chegamos ao quinto capítulo da mais recente saga contada no Loading Time. Tal qual a Interplay, volto a falar sobre uma empresa cuja presença foi mais marcante no mercado dos jogos para PCs, embora tenha aparecido nos consoles também. Quem era vivo nos anos oitenta certamente ouviu falar da Accolade pelo menos alguma vez. Apertem os cintos e aproveitem mais uma viagem sobre a história dos jogos. Até mais.

Fundada em 1984 por dois ex-engenheiros que participaram do projeto do Atari 2600, a Accolade começou como uma empresa desenvolvedora voltada exclusivamente para o mercado de jogos para PCs. Os primeiros sucessos da empresa se deram no campo das simulações esportivas, com os títulos Hard Ball (baseball) e Test Drive (corrida), que se tornaram franquias até longínquas. Test Drive foi também um dos primeiros games que joguei, ainda no PC-XT com tela de fósforo verde. A graça do jogo era pegar carrões como Ferrari, Lamborghini, Porsche e barbarizar pelas estradas. Aliás, muito antes de Need for Speed já se podia fugir da policia para não levar uma multa.


Esse video me lembrou de como era horrível o padrão de cores pré-vga

Outro simulador que fez sucesso naquela época foi Grand Prix Circuit, um dos primeiros simuladores de corridas de Formula 1. Era um game caprichado, com oito circuitos com desenhos imitando os traçados de suas versões reais, além de poder escolher o carro de das equipes Ferrari, Maclaren e Williams. A companhia também investiu em simuladores aéreos como Ace of Aces e Blue Angels, e militares com Gunboat. Ainda sim, a Accolade chegou a se arriscar no concorrido mercado dos Adventures de PCs com o título Altered Destiny.

Os anos noventa

Com suas franquias plenamente estabelecidas no PC, a Accolade resolveu se voltar para os consoles. A princípio resolveu portar alguns de seus títulos para o Sega Genesis, foi aí que começou um enorme rolo do barulho com altas confusões de perder o fôlego. O lance é o seguinte: tal qual a Nintendo, a Sega obviamente cobrava uma série de concessões para que as produtoras terceirizadas pudessem lançar seus jogos. Para evitar a ação de piratas e produtoras não licenciadas, havia um sistema de segurança para proteger o console. Ao invés de se tornar uma licenciada, a Accolade resolveu colocar seus engenheiros para quebrar o código de proteção do Genesis, via engenharia reversa. O processo deu certo e em 1990 foi lançada uma conversão do game Ishido. O problema é que no mesmo ano a Sega lançou a terceira versão do Genesis (aqui ficou conhecido como Mega Drive III) que possuía uma barreira de proteção extra chamada Trademark Security System ou TMSS.

Como era de se esperar, Ishido não rodava no Genesis III, fora o fato de que os engenheiros da Accolade não sabiam como burlar essa proteção extra. Para o desespero deles, durante a Consumer Electronics Show de 1991, a Sega fez uma demonstração do Genesis III rodando justamente o Ishido. Foi a senha para que o pessoal da Accolade percebesse que faltava uma peça para o quebra-cabeça. Após trabalho árduo, finalmente quebraram a proteção do TMSS. Assim os games Hardball, Turricam, Star Control e Mike Ditka Power Football foram lançados com o pedaço de código que permitia aos jogos rodarem mesmo sobre o Genesis III. A Sega achou essa história tão legal, mas tão legal que processou a Accolade por violação de marca e competição desleal. Um mês depois adicionou a acusação de violação de direitos autorais. A brincadeira se tornou séria e a Accolade estava em uma encrenca das bravas.

Após meses de julgamento, a Sega venceu a ação, obrigando a Accolade a para de fabricar e distribuir todos os seus jogos, além de ter de recolher todos os cartuchos das lojas. A beira do que poderia ter sido o fim de sua existência, a Accolade apelou da decisão, levando o caso para uma nova instância. Em uma nova batalha judicial entre as duas companhias, desta vez teve a Accolade como vencedora parcial, pois o novo juiz considerou alguns dos pontos assinalados pela juíza da decisão anterior. De qualquer forma, um ano depois as duas companhias selaram um acordo e a paz reinou entre ambas. Assim, o jogo de basquete Barkley Shut up and Jam foi licenciado pela Sega e lançado de forma oficial, tal qual os games seguintes da Accolade.

Rolos judiciais a parte, a Accolade foi bastante atuante durante aquela época, tanto nos PCs como nos consoles 16-bits, como games como Bret Hull Hockey 95, Bubsy, Bubsy 2, Super Off Road, Speed Racer, Ballz, Wolverine Adamantium Rage, Test Drive II: The Duel, Combat Cars, etc. Nenhum deles teve status de clássico, mas alguns eram o suficiente para tirar algumas horas de diversão.


Brett Hull Hockey 95. O jogo teve versões para Genesis, Snes e PC.

A ida para o vinagre

O fato é que como mencionei acima, a Accolade não emplacou nenhum clássico na década de noventa, tirando os primeiros Test Drive e Hard Ball, seus jogos eram no máximo bons. O crescimento do mercado e o aumento da concorrência foram jogando a companhia cada vez mais para a obscuridade. As velhas franquias de simuladores não tinham força para competir (ao menos em popularidade) com um Fifa Soccer, Winning Eleven ou Ridge Racer, por exemplo. Essa situação levou ao encolhimento gradual, relegando a Accolade ao papel de coadjuvante do mercado. Afinal, quem ia querer jogar mais uma versão de Test Drive quando podia experimentar a novidade Need for Speed?

Outro problema foi a dificuldade da empresa em se adaptar a nova era dos games 3D, prova disso foi o horrendo Bubsy 3D lançado para Playstation ou ridículo Space Jam para PS1 e Saturn. Como se sabe, o mercado de jogos é extremamente competitivo, portanto que não se adapta invariavelmente fica para trás, a Accolade foi apenas mais uma entre tantas. Por fim, foi comprada pela Infogrames em 1999, que preferiu extinguir a marca Accolade. E assim termina o capítulo de hoje.

Próximo capítulo: Epyx

André V.C Franco/AvcF – Loading Time.

9 thoughts on “Entre mortos e desaparecidos 5: Accolade

  1. Aliás esse test drive da atari,me parece que nunca teve a mesma popularidade de um need for speed,ridger race ou gran turismo, mas era uma ótima série de jogos de corrida.

  2. Augusto, deve ter sim. A série começou como Test Drive, depois virou Test Drive Off Road, e como a Accolade foi comprada pela Infogrames – que depois comprou a Atari e ficou nesse nome, abandonando o Infogrames – deve ser da mesma série sim.

  3. Respondendo a pergunta do ARPN… Sim, a série Test Drive do PS1 tem TUDO em comum com a Accolade sim.

    Não me lembro se foi em Test Drive 3 ou 4, mas o jogo passou a ser produzido pela Pitbull Syndicate e distribuido pela Accolade. Depois de ser comprada pela atual Atari, a série continuou sendo produzida pela Pitbull Syndicate e distritribuida pela Atari.

    Hoje a Pitbull Syndicate não existe mais (foi comprada pela Midway… coitada) e a série Test Drive é produzida pela EdenGames… para a Atari.

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