Artigos traduzidos: “Where Are All The “Next Gen” Games?”, de Luke Plunkett

Saudações aos pernósticos.

Fazia tempo que não traduzia um artigo para o Loading Time, mas enfim chegou a hora. Trata-se de um texto um tanto simples, mas que nos trás uma discussão interessante em seu título: onde estão todos os jogos da nova geração? Acompanhem tudo após o link.

O calendário diz “2009”. O Xbox 360 foi lançado em 2005. Isso significa que nós estamos a quatro anos na “nova geração” dos videogames. Se é o caso, então onde diabos estão os jogos “da nova geração”?

É algo que tem me preocupado por um tempo, mas enquanto nos aproximamos do natal de 2009 – a quinta temporada de férias do Xbox 360 e quarta para o Playstation 3 e Nintendo Wii, essa preocupação se transformou em algo um tanto sério, de ranger os dentes.

Afinal, é dito que uma nova geração de consoles deve nos levar a uma nova geração de games. E não apenas games que pareçam mais bonitos, com som melhor; títulos que te dêem algo completamente novo em termos de game design e mecânicas, alguma coisa que somente poderia ser feita tirando vantagem do que há de mais recente em termos de hardware.

Ainda que eu ache que alguns jogos dessa geração tenham feito isso. Quais? Oh, estou feliz por vocês terem perguntado. Jogos como:

Dead Rising: Nunca houve um game como Dead Rising. É um mundo aberto em sua aparência, mas o jogo todo foi construído sobre o conceito de navegar por um oceano sem fim de zumbis em quantidades que os consoles anteriores não conseguiriam colocar na tela de uma vez.

Oblivion/Fallout 3: Dois jogos, eu sei, mas eles fazem a mesma coisa, então eles vão à mesma lista. Ninguém jamais se esquece da primeira vez que deixa os esgotos imperiais/catacumba 101 e adentra no mundo a sua volta, percebendo que a Bethesda não construiu uma fase, eles construíram um mundo interligado, vivo além da escala de títulos prévios como Morrowind.

Sim, eles também apareceram no PC, mas se lembrem esses jogos também foram construídos do zero com os consoles em mente, ao invés de serem portes crus.

Wii Sports/Wii Sports Resort – Até hoje, os únicos jogos que verdadeiramente cumpriram a promessa do Wii Remote, integrando-o naturalmente dentro da mecânica de jogo de forma que você não possa imaginar jogar esses games sem ele.

Entretanto, por melhor que Modern Warfare seja, por melhor que Mario Galaxy seja, eu não os chamo de jogos verdadeiramente “de próxima geração”. Por quê? Por causa que eles falham no meu teste de “próxima geração”, essa é a razão.

Aqui vai o teste: se um jogo pode ser portado para um console de uma geração anterior e manter sua mecânica principal e design geral intacto, não é o que eu chamo pelas razões apresentadas nesse texto de um jogo de “próxima geração”. Mario Galaxy era ótimo, mas realmente é um título de GameCube com algum “balanço com estrelas” jogado nele. Modern Warfare? Incrível, mas como o porte futuro para Wii atesta, usou o X360 e o PS3 primariamente para gráficos e som. Little Big Planet? Outro grande game, mas a versão PSP mostra que experiência principal poderia ter sido feita no PS2.

Outros jogos que eu acho que falham nesse teste são Halo 3, Bioshock, Batman Asylum, Uncharted, Metal Gear Solid 4… Ok, praticamente tudo. Você entendeu a idéia. Claro, eles são ótimos e brilhantes, e tem amáveis cenas pré-renderizadas, e há uso avançado de físicas e IA por debaixo do jogo, e mais importante de tudo, avançada conectividade online, mas todas essas coisas são apenas pequenas mudanças, melhorias, a cereja do bolo, colírio para os olhos. Nenhuma dessas coisas fundamentalmente mudou a forma como você lida com um jogo ou gênero.

Não como Mario Kart e F-Zero fizeram com o parallax scrolling. Ou Mario 64 fez com seu uso do 3D. Ou Grand Theft Auto III com sua viva e pulsante cidade. Esses jogos reescreveram o livro. Você não poderia fazer GTA III no Playstation. Ou Mario 64 no SNES. Eles eram verdadeiramente jogos “de nova geração”.

Agora, não estou dizendo que todos os jogos PRECISAM ser 100% inovadores. Essa é uma exigência impossível. Ridícula, até. Nem toda idéia de jogo irá além da caixa. Eu gosto da minha última versão de FIFA ou Call of Duty, tanto quanto outro cara, e o mundo girará bem com a maioria dos jogos simplesmente avançando lentamente, fazendo o que o último fez, apenas levemente melhor. Mas um homem pode querer, não pode?

Então por que há tão poucos dessa vez? Qual é o problema? Há mudança por debaixo do pano. Existem jogos que alguns, especialmente os desenvolvedores, podem discordar de mim (GTA IV, por exemplo, ou Halo 3 e seus extensivos modos multiplayer). E há alguns que podem argumentar, com um ponto justo, que o mesmo problema assolou gerações passadas.

Certamente os custos de desenvolvimento não ajudam. Mundos são construídos em engines, e engines são construídas sobre regras. Se você quisesse vir com algo inteiramente novo, você teria que fazer por si mesmo, o que não é possível de ser alcançado para muitos desenvolvedores e distribuidores em seus climas econômicos.

Também pode ser argumentado que um único pulo do meio dos anos noventa – da era 16-bits para o N64 e PS1 – durará como a mais significativa nos videogames, nos levando como era feito no 2D para o 3D, e não pode ser confiadas às gerações subseqüentes entregarem o mesmo nível de inovação. Justo, até certo ponto, mas ainda há games como GTA III que foram capazes de serem inovadores bem depois da era 32-bits.

Uma possibilidade final, entretanto, é que há inovação acontecendo nos games de hoje além do superficial. É apenas que não podemos ver. Conversando com Todd Howard da Bethesda sobre o assunto, ele colocou essa idéia em discussão:

“Eu acho que o componente visual é um dos que todo mundo percebe primeiro, e é também a parte principal que se beneficia do que o novo equipamento lhe dá”, ele diz. “Então, é apenas mais difícil ver as inovações, além disso, mas elas estão lá. Eu diria que há tanta inovação pura de design com essa geração tanto quanto teve nas últimas”

“Olhe para as bases agora de como os games manipulam física, dificuldade, controles, jogos salvos, ou simples telas de carregamento. Eu sei que soa tolo, mas eu fico animado com inovações em telas de carregamento, porque elas são a pior parte do game. Eu estou interessado e como os games simplesmente começam”

Potencial sim, mas isso realmente segura as pontas quando comparado com mudanças mais fundamentais? Não muito. “Houve inovações na IA, mas certamente não manteve o ritmo em relação a fidelidade gráfica, que supre a sensação geral de ir para trás” Howard acrescenta. “Os ambientes são tão complexos agora nos games que construir uma boa IA para gerenciá-los demanda um tempo sério” Mas isso não é uma inovação, é simplesmente a IA fazendo o que poderia ser feito antes em um game.

“Minha esperança é que enquanto nós desenvolvedores nos viramos para fazer os games simplesmente ‘funcionarem’, nos possamos inovar mais em como os jogos respondem ao jogador, tanto faz se é a IA, ou socialmente, ou alguma outra coisa.”

Talvez isso explique, e em trinta anos, nós olharemos de volta para a atual geração como a qual os desenvolvedores estavam se situando, preparando o terreno para crescerem, inovando e criando títulos revolucionários para o futuro.

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André V.C Franco/AvcF – Loading Time

7 thoughts on “Artigos traduzidos: “Where Are All The “Next Gen” Games?”, de Luke Plunkett

  1. De fato, concordo com boa parte do que foi dito pelo autor do texto.
    Evidentemente, a categoria “nova geração” foi usada durante muito tempo de maneira arbitrária simbolizando apenas jogos mais bonitos, mais bem produzidos, porém com jogabilidade similar. Super Mario Sunshine (GC) lembra bastante o esquema de Super Mario 64, embora neste não poderiamos ver os mundos imensos nem os efeitos de água daquele. Zelda Twilight Princess lembra MUITO (é excelente cópia mal feita de) Ocarina of Time (N64). No entando, não poderiamos neste, em 1998, lutar com cavalos nem andar por uma Hyrule tão grande. Isso é uma nova geração?
    Do ponto de vista do hardware, sim. Mas, o conceito é o mesmo, apenas expandido, na minha opinião. A mudança radical nos jogos mesmo se deu da era 16bit para o mundo 3D dos 32, 64 e 128bit.
    E essa “nova geração”? Segundo o texto do Sean Malstrom sobre a teoria dos ciclos nos jogos, desde a era PSone/N64 que vivemos numa era de jogos “cinematográficos” ou coisa do tipo, então, fica difícil criar conceitos novos dentre desse paradigma.
    O que há de mais moderno em termos de jogos, são as jogabilidades proporcionadas pelo Wii, em parte. Pois o Wii é a única ferramenta nova no mercado dos jogos, em termos de possibilidades. É um facilitador para muitas coisas impossíveis ou “chatas” de fazer em outra geração de controller.
    Na minha opinião, uma parte de Super Mario Galaxy seria impossível anteriormente (mover o cursor, chacoalhar, etc.), porém o conceito principal do jogo seria perfeitamente possível no Gamecube, ou Playstation 2, Nintendo 64…São idéias novas, repaginando um jogo.
    Por outro lado, PES2009 no Wii é uma nova geração de jogos de futebol. A cara é a mesma, porém a maneira com a qual você é interage com o jogo é totalmente nova.
    Enfim…acho que deu para entender mais ou menos o meu argumento. Idéias novas geralmente vem atreladas à “novas gerações” de consoles que abrem possiblidades, porém revoluções que rompem com velhas gerações e paradigmas só aparecem de tempos em tempos. E mesmo no Wii (máquina de ruptura), os jogos de fato “de nova geração” ainda são poucos.

  2. Esse é um texto muito interessante baseado em fatos, já passou da hora dos games se atualizarem. Na geraçao anterior tinhamos os primeiros games como FF10 e Onimusha. Eram somente port para outra geração, mas os games eram a mesma coisa de jogar um FF9 ou Resident Evil com gráficos mais trabalhados. Mas em pouco tempo perceberam o quanto podia ser feito, e foi então que surgiu Metal Gear 2, GTA 3, Resident Evil 4, Call of Duty entre outros. Essa geração atual esta recebendo versões mais bonitas de games do passado. Quando jogamos RE5 vemos o mesmo 4 com um visual renovado e uma mecanica diferente a mais, no resto, temos o mesmo RE4 de antes. Prince of Persia tem um novo visual, uma agilidade melhor e um personagem extra (que nada mais é que uma nova arma para o herói), no mais temos o mesmo game de plataforma de antes. Isso tudo em quatro e cinco anos de geração. Temos o Wii, mas poucos são os jogos que inovam realmente a jogabilidade dos controles, e o projeto da Sony ainda deixa buracos e falhas em aberto, e o da Microsoft provavelmente se sairá melhor no proximo Windows que no X-Box 360. Lembrando que mesmo sendo versões mais bonitas dos games antigos, gosto muito dos jogos citados.

  3. Excelente artigo, de fato. Grande escolha para tradução.

    Mas… sobre a obcessão por inovar, eu questiono sua necessidade.
    Canso de ver gente dizendo que os jogos antigos eram isso e aquilo, e que, se tivessem os gráficos e som de hoje, seriam perfeitos. Ouço que os jogos antigos são mais divertidos, têm uma magia especial, algo a mais.

    Óbvio que novos elementos técnicos nos jogos e novas formas de interação, tanto com o jogo quanto com outros jogadores, são sempre muito bem-vindos.
    Mas, será mesmo que deve ser levado ao extremo de termos jogos que seriam incríveis, verdadeiros blokbusters, se não beirassem o bizarro ?

    Embora existam outros jogos que beirem o bizarro (alguem aí falou de flower ?), meu exemplo mais visível é mad world. O jogo é frenético, tem a alma dos antigos beat em’ all, mas… não vendeu. Porque?
    Porque é dirigido a um publico restrito, mais conservador, e obviamente, gente conservadora torce o nariz para coisas muito diferentes.

    Claro que cair no vício da repetição (activision ? call of duty ? guitar hero ???) torna monótono o mundo dos games, e é algo completamente desnecessário para todos nós, mas… alguem aí gostaria de ter de lutar contra um demônio armado, num duelo sangrento até a morte, em um game da série zelda ????

    Em alguns casos, quando colocamos um disco de determinada franquia de games, esperamos determinado tipo de experiência.
    Mario pula sobre cogumelos e resgata a princesa, link desbrava hirule para banir o mal, snake se esgueira em campo inimigo sem ser visto.

    Para algumas séries, não faz grande diferença se elas são inovadoras ou não, desde que elas mantenham a familiaridade com os elementos que as fizeram inesquecíveis, e sejam competentes nisto.

    Inovação é legal, mas não se pode ignorar toda a experiência do passado e tudo o que fez da indústria de entretenimento algo tão grande.

    (desculpem, me empolguei)

  4. @roger

    Concordo com você.
    Essa questão é até filosófica uahuah

    Lembro que Platão em seu “A República”, teceu comentários sobre duas questões humanas bem comuns: a questão da permanência ( deixar as coisas estagnadas, como estão) e a da transformação ( a aventura, a mudança).
    Não vou me estender aqui porque senão vou acabar falando demais mas, em poucas palavras, ele comenta (algo até óbvio) que um depende do outro, e que existem fases para cada um deles.
    Você não pode viver em constante transformação, pois se não você não cria uma identidade.
    Também não deve viver em constante permanência, pois você acaba se deteriorando se não tentar se renovar.

    Nos games, eu penso que deve ser a mesma coisa: os games não podem se ligar em ciclos repetitivos e sem brilho nenhum, como em jogos como CoD, onde a permanência sempre fala mais alto.
    Mas também não pode se entregar a sempre querer criar coisas novas, a sempre se transformar e não criar bases.

  5. Acho que cada dia é mais difícil incorporar coisas novas em jogos já estabelecidos, sem perder identidade…

    Só me chateia ver alguns bons jogos novos cairem no ostracismo porque ousaram demais e se tornaram bizarros.
    Mas experimentalismos sempre trarão novas idéias para mentes mais conservadoras. Que inventem e reinventem, se isso nos divertirá ! 😀

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