Repostagem: Análise sobre a localização de games no Brasil

Saudações aos leitores.

Requento aqui neste nobre espaço mais uma matéria da versão antiga, uma análise sobre a localização dos games no Brasil. Esse é um assunto pouco citado na midia de games (só me lembro de uma matéria na revista EGM Brasil e olhe lá), embora o texto seja do ano passado, acho que ainda faz sentido. Por isso o trouxe para a avaliação dos senhores (apesar que esse blog inda não ter sido redescoberto por muita gente).Enfim, como de costume, o texto completo segue após o link. Abraços e até a próxima postagem.

Como jogador de videogame desde os tempos dos processadores Zilog e, antes de tudo, brasileiro como vocês, sempre tive vontade de jogar videogames traduzidos para a língua trazida pelos ancestrais do seu Manuel da padaria. Antes de aprender o que significava “The book is on the table” e “How are you? Fine! Thanks, and you?”, eu me torturava para entender o que diabos acontecia em Ninja Gaiden ou o que queria dizer “Thanks, but the princess is in another castle” no Super Mario Bros. Acredito que muitos de vocês sentiam (ou ainda sentem) o mesmo que eu e não entendem qual é a razão dessa falta de interesse e de suporte para esse tipo de implemento aqui no Brasil. É sobre isso que falarei aqui.

Muitos devem se lembrar do final dos anos oitenta/início dos anos noventa em que, apesar de todas as dificuldades econômicas que o país atravessava e das sucessivas trocas de planos monetários, havia um pujante mercado nacional de videogames, as locadoras de jogos eram um negócio lucrativo e os games e consoles eram dentro das limitações mais acessíveis. Em suma, era um cenário mais atraente para empresas investirem, entre elas, a Tec Toy.


Turma da Mônica no Castelo do Dragão

Tradicional empresa do ramo de brinquedos eletrônicos, a Tec Toy se tornou a representante oficial da Sega no Brasil, fazendo com que o Master System, o Game Gear e o Genesis (aqui prevaleceu o nome japonês Mega Drive) fossem oficialmente lançados em terras tupiniquins com algumas coisinhas interessantes como garantia, manuais em português e o, não menos sensacional, selo “fabricado na zona franca de Manaus”. Lindo!

Mas as máquinas seguistas não estavam sozinhas. Competiam com as dezenas de clones nacionais do NES, como o Phantom System da Gradiente, o Hi Top Game da Milmar, Dynavision 3 da Dynacom, entre outros os quais não me recordo. Como a concorrência pelo dinheiro do lanche da criançada era bem acirrada, algum elemento diferencial tinha que desequilibrar a disputa para algum dos lados. Aí que os jogos traduzidos vieram.

A Tec Toy foi a pioneira neste tipo de trabalho, realizando todo o processo em estúdios aqui do Brasil. O trabalho era de primeira. Durante a vida útil desses consoles vários jogos foram traduzidos, entre eles destaco Phantasy Star do Master, Shining in the Darkness e Yuyu Hakusho do Mega Drive. A empresa também foi responsável por algumas conversões como o Street Fighter II do Master System, feito com a versão 16bits como base, além das famosas modificações feitas em cima de games estrangeiros não tão famosos, como os jogos da Turma da Mônica, Chapolin Colorado, Geraldinho, TV Colosso, etc.

Mesmo que o resultado às vezes não fosse tão bom, esse tipo de trabalho era fundamental para a identificação de muitos jogadores com os consoles, ajudando muito no apelo dos produtos e, por conseqüência, nas vendas. Pra não dizer que tudo eram flores, por outro lado tínhamos que conviver com os arcades da SNK, que utilizavam horríveis tradutores automáticos cujo resultado era o assassinato em série da gramática portuguesa com erros tão grotescos a ponto de fazer o professor Pasquale ter faniquitos de ódio.

Os anos passaram e infelizmente nosso mercado foi progressivamente encolhendo por diversas razões que dariam um texto apenas sobre isso. Muitas companhias entraram e saíram e hoje temos apenas alguns corajosos insistindo em investir no Brasil, entre eles a gigante Microsoft e a Electronic Arts, que realizam trabalho parecido. Para o console do Tio Bill, os jogadores brasileiros têm o título Viva Pinãta totalmente traduzido. Pelo lado da EA, a linha de jogos FIFA, The Sims e Sim City (todos em suas edições para PC) têm o mesmo tratamento. Entrei em contato com a EA do Brasil para perguntar sobre o processo de tradução e me informaram que “ele é feito junto ao estúdio de desenvolvimento do jogo nos Estados Unidos, Canadá ou Europa”. Já a Microsoft do Brasil me pediu para entrar em contato no telefone 0800 891 9835. Liguei para lá e não souberam me informar quem é o responsável pelo processo de tradução e nem se Halo 3 teria tal tratamento, embora notícias da internet confirmem tal informação.(nota do autor: o jogo não havia ainda sido lançado na data original desta postagem).

Nos jogos para celulares a situação é ainda pior, com trabalhos porcos feitos por argentinos e mexicanos da vida, que provavelmente ainda acham que o Rio de Janeiro é a capital da Bolívia e que a Salsa faz parte de nossa música popular. Um exemplo da precariedade dessas localizações é o jogo Driver L.A, cuja versão para o celular Nokia 5200 além do português alienígena, consegue a proeza de ter quedas de frame. Para finalizar, gostaria de deixar esse blog aberto para as companhias citadas darem suas versões dos fatos. Enquanto isso os jogadores brasileiros ainda esperam por um tratamento digno dos consumidores de outros países.

André V.C Franco/AvcF – Loading Time

Postado originalmente em 5 de setembro de 2007
 

8 thoughts on “Repostagem: Análise sobre a localização de games no Brasil

  1. Sem querer provocar nenhuma discussão aqui, mas uma das única formas de jogarmos títulos traduzidos são atavés de versões “alternativas”. Já vi jogos de Snes, Mega, GBA, Dreamcast, PSX, PS2 e principalmente PC traduzidos por pessoas que curtem o jogo, e é notável como a procura por eles é grande.

    Agora falando de mim especificamente, a falta de versões traduzidas dos jogos (em especial os RPG’s) acabou me forçando a ficar tentando entender o que estava escrito, o que resultou em um inglês capenga que serve para entender o básico da história. Pena que as vezes os detalhes é que fazem a diferença.

  2. De fato é meio complicado não recorrer aquelas roms modificadas quando se trata de jogos traduzidos, mesmo porque esses trabalhos de fãs costumam ser competentes. Eu mesmo joguei Chrono Trigger pela primeira vez no emulador, com uma rom traduzida para o português (só depois joguei em inglês).

  3. É verdade, eu não entendia patavina do inglês nos jogos naquela época. Ainda bem que isso mudou 🙂
    Agora este texto me deu uma nostalgia… Eu nem sabia que o Phantom System e o Dynavision eram clones do NES, e ainda mais nacionais. Estranhava eles pegarem jogos do NES. E o jogo da Mônica, desse eu me lembro bem. Bons tempos aqueles em que existiam locadoras e a gente podia alugar jogos. Agora temos que recorrer à pirataria devido aos preços abusivos dos jogos originais.

  4. Cara quero trocar uma ideia com você que escreveu esse artigo.
    Me contate pelo email ae em cima ou pelo twitter @pavlosdias.
    estou com uma ideia e talvez você tenha interesse!

  5. Olá André Franco,
    Gostei muito da sua resenha. Sou tradutor e gosto de games, mas fico surpreso ao notar a ignorância de muitos gamers quanto ao processo de Localização. Inclusive, Max Payne 3 está em fase final de produção e já sairá todo localizado para o Brasil. A primeira versão desse jogo também teve um bom trabalho de localização, mas essa versão 3 será muito bem melhor.
    Vitória, 10/02/2012
    Marco Franco
    Tradutor / Redator / Revisor / Fotógrafo

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