Por que será que “escondem” essa informação?

Saudações aos bem aventurados.

A não ser que tenham se escondido em alguma caverna, todos vocês devem estar cientes da morte de Steve Jobs. Pois bem, como ocorre com toda personalidade, um verdadeiro processo de beatificação entrou em curso – logo será enterrado por algum outro assuinto mais novo. Até aí nada demais, já estamos acostumados com isso. O curioso porém é um outro aspecto, algo que pelo que pude ver até aqui, é praticamente “abafado”.

Me refiro ao fato de Jobs ter começado a carreira trabalhando com video games, para a Atari, com os arcades da época. Aliás, não apenas Jobs, mas também seu companheiro de fundação da Apple, Steve Wozniak começou trabalhando para a Atari(Wozniak também trabalhou na HP) – por sinal, Jobs e Wozniak desenvolveram nada menos que o clássico Breakout. Além disso, a experiência que Jobs e Wozniak adquiriram na Atari tanto como programadores quanto como empreendedores foi vital para o sucesso da Apple e da carreira de ambos.

Pois bem, ontem deixei a televisão ligada enquanto fazia minhas tarefas no PC, e como simplesmente desprezo o lixo presente em 99% das programações dos canais, sempre troco de emissora até achar uma que transmita um jornal. Dessa forma eu acabei ouvindo a mesma notícia da morte do Jobs umas “quinhentas” vezes, por jornais diferentes. Em nenhum deles, porém, sequer foi citado o fato de Jobs ter seu início de carreira na Atari, trabalhando com desenvolvimento de games. Mesmo quando a viagem à India foi citada (Jobs voltou para Atari depois da viagem), nem uma palavra é dita sobre o passado gamístico de Jobs. Por falar nisso, ouvi algumas vezes que depois dessa viagem (chamada de “retiro”, quando na verdade foi uma peregrinação), Jobs magicamente voltou e fundou a Apple. Isso é simplesmente mentira, pois ele não apenas fez um serviço internacional, como foi recontrado ao voltar. Steven Kent, autor do livro The Ultimate History of Video Games não me deixa mentir:



(Desculpem a qualidade da imagem, tô sem scanner. E vejam só, improvisei com um iPhone)

Jobs, Wozniak, Breakout e o fator Atari

Sobre o papel que Jobs e Wozniak exerceram na Atari, vejam abaixo informações retiradas do livro High Score!, de Rusel de Maria e Johnny Wilson:


Exatamente como mencionei no início do texto, Jobs e Wozniak trabalharam para a Atari e foram responsáveis pelo desenvolvimento do clássico Breakout (que mais tarde ficou conhecido por Arkanoid). Foi dessa forma que, junto das experiências pessoais de ambos, que Jobs e Wozniak desenvolveram suas habilidades computacionais. Todavia não foi apenas isso, a experiência gamística fez parte da formação, sobretudo de Wozniak:


E há ainda uma informação mais interessante:


Como puderam ler acima, a Atari foi essencial até mesmo para Steve Jobs conseguir o financiamento necessário para poder bancar seus projetos, principalmente do sonhado Apple II, computador pessoal que revolucionou o mercado quando foi lançado. Talvez seja exagero afirmar que a Apple não existiria sem a Atari, porém é evidente que se não fosse por Bushnell (fundador e dono da Atari) e pela passagem pela empresa de games, Jobs e Wozniak teriam tido muito mais dificuldades para chegarem até onde chegaram e até quem sabe, tivessem desistido no meio do caminho. De uma forma ou de outra, tanto Wozniak quanto Jobs começaram suas carreiras como desenvolvedores de games, têm seus nomes na história dos jogos – até mesmo o Apple II foi vendido como uma máquina que rodava jogos.

Agora porque essa informação é sonegada de milhões de espectadores e internautas, isso é um mistério para mim. Pombas, nem mesmo no Kotaku, que é um portal dedicado a notícias sobre o universo dos games há uma mísera palavra sobre esse assunto. Nem no Uol e sua seção dedicada aos games, o Uol Jogos. Tudo bem, por outro lado da televisão (especialmente dos canais abertos e seus jornalistas-google/wikipedia – apenas uma ou outra exceção escapa) eu não esperava muito mesmo, mas nem nos portais internéticos se fala sobre Steve Jobs, sua relação com games e a influência deles na formação daquele que se tornou um dos mais brilhantes empreendedores de nosso tempo.

Um pouquinho de humanidade

Embora hoje seja objeto de culto por fanáticos (também conhecidos por macfags) e esteja em pleno processo de beatificação por parte de gente que até semana passada não sabia a diferença entre iPad e iPod, só Jobs não era um santo. Aliás, tampouco era uma figura simpática e bacana. Vejam:

Sacrilégio? Heresia? Ultrage? Nada disso, amigos. Apenas humanidade mesmo. Como é mencionado em outras passagens do mesmo livro, Jobs era frequentemente confundido com um hippie, devido ao seu modo de vestir e aparência. Nada mais comum naquele 1975, por sinal. Nesse sentido, os comentários maldosos sobre o suposto mau cheiro não soam dessa forma tão absurdo(uma vez que hippies nunca foram reconhecidos por apreciarem um chuveiro…) Ainda na imagem acima vocês podem ler o depoimento de Bushnell, co-fundador da Atari(e portanto patrão de Jobs) que via no comportamento presunçoso e petulante de Jobs uma marca de personalidade forte. Apenas um detalhe em comparação com o grande talento que o jovem engenheiro já demonstrava frente a outros funcionários de menor destaque que trabalhavam na Atari.

Por fim…

Para encerrar, quero deixar claro que não alimento qualquer teoria da conspiração – por isso usei aspas no título do post – porém acho muito esquisito, estranho mesmo que praticamente ninguém toque no ponto que desenvolvi aqui. Será que os macfags dos foruns e eventualmente presentes em redações têm vergonha que o mito Steve Jobs seja conhecido como alguém que começou trabalhando com “joguinhos”? Ou essa informação é desconfortável para o mito que se criou em torno do co-fundador da Apple?

Se alguém souber a resposta, sou todo ouvidos.

AvcF – Loading Time.

8 thoughts on “Por que será que “escondem” essa informação?

  1. Na verdade, foi citado no jornal da globo que ele trabalhou antes e depois do “retiro” em uma empresa de videogames, mas, provavelmente para não fazer propaganda não citaram a marca. Procurei o link do vídeo no youtube, mas não achei.

    Comentário do AvcF: mas se o problema era “propaganda” para a Atari, então porque citaram diversas vezes a Pixar?

  2. Minha opinião:

    O próprio Jobs nunca fez questão de ficar lembrando disso, nunca vi ele dar uma declaração sobre seus tempos de Atari (foi tanto assim?).

    Acho que pra ele não teve tanta importância, logo os canais de mídia também não mencionam. Uma pena.

  3. Não teve importância para ele, como não teve importância já que o mesmo aprendeu as idéias de um sistema que entregasse software e hardware com o Atari, depois graças a esse conceito ele criou o coputador pessoal.

    O videogame que criou o computador pessoal e não o contrário. Através do videogame se concebeu o computador pessoal. Jobs aprendeu isso na Atari. Sem falar em todo aprendizado que empresa deu a ele sobre o mercado de tecnologia, conheceu lá seu parceiro de fundação da Apple e seus futuros financiadores da empresa, já que o mesmo não era milionário.

    Como isso não era importante para Jobs, não dá para conceber a maioria das coisas que ele fez se não tivesse o tempo que ele passou na Atari, sò isso.

  4. Na história da Apple ninguém fala do Pippin. Acredito que tenha sido produzido na fase em que Steve estava fora da empresa. É completamente ignorado pelos Macfags.
    Foi um completo fracasso mas que tinha muitas inovações para seu tempo embora a maioria não tenha vingado.
    Quanto ao esquecimento da passagem do cara pela Atari, acho que a mídia mundial estava muito preocupada em mostrar ele como o homem que salvou o mundo da ignorância e bla bla bla. Infelizmente games ainda não são vistos como deveriam por veículos de informação como coisa de criança e não como forma de arte e tecnologia.

  5. Realmente AvcF, não tinha reparado nisso… E Hendrix, acho que a fase em que eles consideravam videogame coisa de criança ficou pra trás. Agora eles acham que é coisa de nerd introvertido e potencialmente perigoso pra sociedade, coisa de psicopata.

  6. Jobs não gostava de jogos eletrônicos, ele havia declarado isso faz uns 5, 10 anos. Falou que era “waste of time”. Certamente por isso a mínima associação com videogames – além do que Breakout é interessante para nós retrogamers mas em se tratando de TV aberta não vejo como esta informação seria relevante.

  7. Sem a Atari não haveria Apple, caros colegas. O conceito de computador pessoal partiu dos videogames e não o contrário. Não surgiu de sonhos molhados de Steve Jobs, o Atari já era uma realidade comercial viável e lucrativa.
    Foi o primeiro computador pessoal a entrar nos lares de forma massiva.

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