Artigos traduzidos: “Existe mesmo um pai dos video games?”

Saudações aos leitores.

Segue abaixo a tradução de um artigo interessante do jornal Le Monde, que discute o título de “pai dos video games” que diversos sites de games e portais de notícias apressadamente deram à Ralph Baer, por conta de sua morte há alguns dias. O texto não tomou o lado de ninguém, mas sim apresentou fatos históricos que demonstram o quanto frágil e complicado de usar é esse “título”. Creio que seja interessante também para quem, como eu, se interessa pela história dos jogos. Aproveitem.

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Existe mesmo um pai dos video games?

Por William Audureau

A morte de Ralph Baer, inventor do primeiro console de video game e auto-proclamado “pai do jogo eletrônico” relançou um debate que nunca foi decidido.

Desde a noite de 7 de dezembro, são muitos artigos e tweets a renderem homenagem à Ralph Baer, inventor do primeiro console conhecido da história e co-autor da patente sobre o jogo eletrônico na TV, morto um dia antes em sua casa em Manchester, Estados Unidos. Mas para os amantes da história do video game, vários obtuários se enganam sobre a real contribuição do americano. E o motivo: outros o precederam.

Nolan Bushnell, durante a “Games Developper Conference” de 2011. | Creative Commons Attribution 2.0 – Max Fotografia de GDC Online

Há muito tempo, Nolan Bushnell foi considerado como o inventor do video game. A idéia data dos anos 1970, e se deve ao serviço de comunicação da Atari, que de fato colocou seu co-fundador à frente nas mídias. Na verdade, o empreendedor não teve a idéia de Pong, seu primeiro jogo de sucesso, que é uma reprise do Magnavox Odyssey, console que teve a oportunidade de ser lançado seis meses antes.

O jogo de tenis da Magnavox se baseia naquele desenvolvido pela equipe de Ralph Baer para seu protótipo de console, o Brown Box, entre 1966 e 1969. Esse console tinha a particularidade de ser protegido por uma patente cujo campo de aplicação era muito amplo, tão amplo que durante vinte anos todo jogo sobre tela de raios catódicos caia em sua lâmina.

É sobre esse ponto que Ralph Baer baseia sua argumentação, na sua autobiografia, “Memórias do pai dos video games“:

Consequentemente, quando a Sanders registrou o primeiro pedido de patente sobre minha invenção em meados de 1967, a identidade do primeiro a ter tido a idéia de jogar sobre uma tela de televisão tinha sido estabelecida, de uma vez por todas: eu. Isso faz de mim, por definição, o pai do video game nos Estados Unidos, onde o “primeiro a inventar” é um fator determinante na atribuição de uma invenção para a entrega de uma patente, e no mundo, onde geralmente o “primeiro a registrar um pedido de patente” determina quem tem a oportunidade de ser reconhecido como o verdadeiro inventor.

 

Contudo, isso não faz de Ralph Baer o primeiro criador de video game em sentido amplo. Em 1961, um pesquisador do Massachusetts Instituite of Technology, Steve Russell, projetou Spacewar, um jogo em tela vetorial programado em computador e terminado em 1962. Embora esse não tenha sido patenteado, e o computador que o fazia rodar custasse então $120.000, o jogo não teve existência comercial antes de 1971, quando Nolan Bushnell por um lado e Bill Pits de outro conceberam uma versão em forma de máquina arcade. Sem sucesso comercial.

Antes de Rusell, outros se divertiram em transformar a tecnologia para propor experiências lúdicas. É o caso de William Higinbotham, físico americano que conseguiu apresentar um jogos de tenis com vista lateral, Tennis for Two, sobre um osciloscópio, em 1958. Era então uma instalação temporária,  posta para distrair os visitantes durante as aberturas anuais do laboratório de Brookhaven, em Nova Iorque, embora ele ainda seja citado regularmente nos livros de história do video game.

O exemplo foi também discutido pela Nintendo em 1986, por atacar a validade da patente registrada por Ralph Baer e se saiu um vespeiro jurídico. Mas o argumento da empresa japonsesa foi rejeitado pelos tribunais, que julgaram que essa instalação era tecnicamente diferente de um video game sobre televisão, e não invalidando então a patente do Brown Box.

Alguns anos antes, em 1952, um doutorando britânico em informática, Alexander Douglas, conseguiu apresentar um jogo da velha em uma tela de computador.  Ele é frequentemente apresentado como o inventor do video game de PC, mesmo se na verdade numerosos jogos de xadrês e damas já existissem há alguns anos. Sua real contribuição foi imaginar uma interface homem-máquina ergonômica, nesse caso uma discagem telefônica para escolher qual das nove casas para traçar o X. No entanto, a idéia nunca foi explorada industrialmente.

Enfim, o exemplo mais velho conhecido de “video game” pré-histórico data imediatamente do pós-guerra. Nós o conhecemos graças à patente registrada por Thomas Goldsmith Jr, presidente da firma Dumont,  ainda que sobre um “periférico de divertimento em tubo catódico”. Ele imitava um fuzil procurando uma mira, mas nenhum protótipo chegou até nós, e parece que a patente nunca foi explorada. Ironicamente, a patente já havia expirado quando a de Ralph Baer foi concedida pelo escritório americano de patentes em 1973.

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One thought on “Artigos traduzidos: “Existe mesmo um pai dos video games?”

  1. Quem inventou o video game foi o tio Ralph. Ele criou um console, pôs numa caixa e vendeu para as famílias americanas.
    O tio Nolan inventou o mercado de games. Ele criou toda a cadeia produtiva e de distribuição de jogos e consoles.
    Tudo anterior aos dois foi importante e deve ser mencionado na história dos games mas foram experiências.

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